3.5.07

Democracia local e o Dia do Trabaalhador



in Macro


DEMOCRACIA LOCAL, LISBOA EM AVALIAÇÃO...



A recente crise na autarquia de Lisboa, por força dos elevados índices de corrupção praticados - alegadamente - por parte dos vereadores, entretanto constituídos arguídos, levou à convocação de eleições intercalares em Lisboa. Mas daqui nasceu outro problema: serão essas eleições apenas para o executivo camarário ou, como será natural, sejam eleições extensíveis a todos os órgãos da autarquia, designadamente ao nível da Assembleia Municipal/AM- que fiscaliza o executivo e tem como presidente Paula Teixeira da Cruz - putativa candidata pelo PSD nestas próximas eleições intercalares. (link)


É óbvio que quem, como o PsD, está agarrado ao poder não quer perder o status, os privilégios, a influência inerente aos tachos que ainda usufrui na AM, por isso defende com unhas e dentes o indefensável, ou seja, que as eleições intercalares incidam apenas no executivo e deixem de fora a Assembleia Municipal. Ora isto, do ponto de vista da legitimidade, da coerência e da operacionalidade democrática tem nome: é um aborto político. Só que de abortos políticos já estão os lisboetas fartos com esta equipa mantida (artificialmente) por Carmona - ele próprio um sub-produto da guerrilha entre mendes e Santana.


O natural será que essas eleições assumam a sua plenitude e clarifiquem de vez com a situação podre em Lisboa que só tem paralisado o processo de tomada de decisão e, com isso, atrasado a implementação dos projectos sociais, viários, ambientais, educacionais e outros para a cidade. Sabe-se até, sob a gestão Carmona, que nem dinheiro há para comprar papel higiénico em certos departamentos da autarquia, talvez seja por isso que esta gestão tenha trazido tão mau cheiro à Capital do País. Portanto, a haver eleições deverão ser para todos os órgãos, e não só para aqueles que convém ao Psd ou à srª Paula da Cruz - cujo conceito de democracia não deixa de ser caricato.


Mas para além desta espuma política há um problema de fundo que reside no facto de as pessoas hoje já não serem coerentes nas suas opiniões. Ninguém está a ver Mendes - caso a autarquia fosse liderada por João Soares e tivese maioria na Assembleia Municipal por parte do PS - defender eleições sectoriais apenas para o executivo, poupando assim a AM. Tudo depende do lado em que estamos, dos interesses que queremos defender e em política não há princípios, só interesses. Talvez seja por esta incoerência, que levou Marques Mendes, por exemplo, a segurar no Parlamento um sujeito como António Preto, acusado de corrupção e de enriquecimento em causa própria no caso da mala preta que envolvia falsificação de cartas de condução duma empresa do Norte para a qual o referido deputado, Preto, trabalhou. Aqui Marques Mendes deveria ter sido coerente com a sua miserável doutrina caseira, mas não o foi, quis poupar o seu deputado. Ele lá saberá porquê...


Consequentemente, são atitudes e condutas hipócritas desta natureza que fazem pensar aos cidadãos e aos eleitores que os partidos políticos não passam hoje dum bando de mafiosos mais ou menos encartados que visam assaltar o poder e governar com desdém as populações, como tem sucedido em Lisboa com este poder local fabricado por Mendes e mal interpretado por Carmona.


O mesmo que hoje, curiosamente, pede que só haja eleições no executivo e deixe intocável o outro órgão - a AM - onde o PsD tem maioria. Isto é o mais puro dos oportunismos políticos, reflecte bem a visão fragmentária que Mendes, Paula teixeira da Cruz e este Psd de pacotilha nutrem pela democracia e pelo poder local em Portugal. Depois não querem perder votos e eleitores com este cinismo que já raía a revolta e a fúria.


Dantes os partidos políticos costumavam ser instituições consolidadas em torno de ideais, e quer os partidos de esquerda quer de direita moderna tinham por finalidade mudar o mundo e melhorá-lo para melhor servir os interesses e as aspirações das pessoas. Hoje, pela forma como aquele PsD se posiciona na vida pública, mais parece que os velhos partidos se converteram em empresas que concedem (ou não) o alvará para que certas opiniões vinguem e outras não. E é claro que o dr. Marques mendes já se atribuíu a si próprio o alvará para que essas eleições intercalares incidam exclusivamente no executivo poupando, assim, a sua querida amiga e putativa candidata à CML - a manter as fileiras cerradas na AM.


Já aqui temos dito que Marques Mendes revela uma terrível falta de maturidade política, mas além de estatura falta-lhe também e essencialmente ideias coerentes que o tornem fiável em termos políticos, coisa que ele não tem sido. Presumo seja das más companhias. Mendes nunca deveria descurar uma regra d' ouro em política. É que a credibilidade é como a virgindade, uma vez perdida nunca mais se...






O DIA DO TRABALHADOR



Como o 25 de Abril, todos os anos o ritual repete-se: a comemoração do Dia do Trabalhor a 1 de Maio. É a força do ritual previsto no calendário e o dia de lazer que se subtrai ao dia de trabalho, apesar de eu ser contra o trabalho e a favor da criatividade. Aliás, o Homem só deveria criar, inventar - a produção deveria ficar entregue às máquinas. Mas infelizmente temos tanto génio e acabamos por ficar escravo delas. Faz lembrar a estória do outro que nos oferece a corda com que nos enforcamos...Adiante.

Vivemos disciplinados por uma troika de vectores: os valores que nos (des)orientam; as instituições sociais, económicas e política que regem as nossas vidas; e a tecnologia que nos permitem fazer coisas mais rápido e em grande quantidade e com baixo custo. Este foi o mundo que criámos e é hoje gerador de conhecimento neste novo ambiente de globalização competitiva em que uns tentam defenestrar os outros, como fizémos ao Miguel de Vasconcelos no tempo em que nos vendíamos à Espanha, hoje a Espanha vem cá vender.

Dito doutro modo: o génio já não está concentrado dentro da garrafinha, anda por aí, à espera que as pessoas acumulem as qualificações necessárias para depois o mercado as agarrar e rentabilizá-las no âmbito da vida das organizações. O problema está hoje no seguinte: como converter o conhecimento que acumulámos em acção de interesse comum, que opera em prol da comunidade. Este é o drama no nosso tempo... Temos liberdade, temos alguma mobilidade mas não conseguimos produzir elevados índices de certeza que nos deixem descansados quanto ao futuro próximo.

Por isso, estamos como estamos: crescemos pouco e mal face à Europa, não somos competitivos, estamos no cú de judas desta ponta do extremo Ocidental da Europa, longe dos diamantes mas perto dos tubarões do Atlântico, e também já não podemos contar com a figura mítica do Estado-paizinho que nos aplacava os problemas de saúde, de segurança social, de educação, enfim, dava-nos uma mesada para os vícios da formação e da sobrevivência. Facto que nos obriga a não ser fiéis ao velho Estado - que hoje despede e expulsa as pessoas que para ele trabalharam na lógica do imperativo do emagrecimento do Leviatão e do equilíbrio das finanças públicas para demonstrarmos que voltámos a ser o bom aluno diante Bruxelas. Só que hoje Bruxelas é dirigida por um campónio formado na escola maoista, no tempo de Cavaco a Europa tinha um líder com visão: Jacques Delors, eis uma pequena grande diferença.

Contudo, essa velha fidelidade para a vida ao Estado desapareceu, já não vamos à igreja, casamos várias vezes na vida, alguns dão em maricas e elas dão em fufas e vivem sózinhas e azedas por entre animais de estimação por causa das desilusões, mudamos de empresa várias vezes, também não nos fixamos no mesmo partido, aliás, em Portugal os milhões que votam fazem-no alternando o seu voto ora no PS ora no PsD (é o centrão democrático do arco da governação). No fundo, estamos todos mais erráticos, mais promíscuos em relação aos valores, às instituições e até em relação à tecnologia - que costumava assentar na desparecida mecanização. Hoje, qualquer pia-tecnológica nos permite meter o mundo a girar na palma das mãos, como ilustra aquela imagem (sem otoclismo).

Os valores hoje são como um carnaval de côr, barulho e mobilidade em que está tudo liberalizado: banca, serviços, seguros, telecomunicações, companhias aéreas... Qualquer dia o Manel Pinho lembra-se de privatizar o Mosteiro dos Jerónimos e concessiona a Torre de Belém a uma filial da Prisa gerida a partir do gabinete de Pina Moura. Hoje já não há fronteiras, os territórios artificializaram-se e até a nossa própria vida se desregulamenta. Os nossos filhos também têm uma liberdade de escolha maior: o que fazer, onde morar, onde estudar, alguns decidem logo dar em maricas e elas em fufas, tudo em idade precoce. Outros seguem vias alternativas como travestis e sadomasoquistas.. É o mundo da Liberdade máxima em que tudo é possível, até transformar um homem numa mulher.

Mas há aqui um problema sério em toda esta parafernália de escolhas e de opções-macacas. É que, não obstante a liberdade, os valores, as instituições e a tecnologia não vão dar resposta aos nossos verdadeiros problemas e anseios. O Estado pira-se, emagrace despedindo para ganhar músculo e fibra e eliminar gorduras e adiposidades; as empresas só querem lucro, e fazem hoje mais com três pessoas info-qualificadas do que dantes com uma batalhão delas; a igreja para aqui não interessa nada, nem as batinas viciosas da padralhada; e as tecnologias também se estão a lixar para saber se os portugueses arranjam ou não bons empregos, conseguem pagar o preço dos juros do dinheiro que pediram ao banco para pagar a casa, o carro e as férias ao Brasil. O mercado, no ciclo final, só confia em quem paga, o resto é lixo que ele nem quer varrer.

No fundo, temos hoje uma maior aparência de Liberdade mas, na realidade, a tecnologia não serve de almofada para ninguém, o Estado já há muito que deixou de ser uma válvula de segurança, as intituições são boas e eficientes mas é a cobrar impostos e não a distribuir receita ou serviços sociais às populações, como na Europa do Norte - que nos devia guiar pelos bons exemplos. De modo que estamos entregues à bicharada, quer dizer, a nós próprios.

Decorre isto do Dia do Trabalhador, momento em que é suposto equacionar o valor da nossa Liberdade na sociedade, no Estado e connosco próprios. E a conclusão a que chego é simples: temos hoje menos Liberdade e mais responsabilidade. Vivemos hoje mais na incerteza do que na certeza. A saúde, a educação (que agora a grunha da 5 de Outubro quer exterminar a Filosofia no acesso ao Ensino Superior) - tudo nas nossas vidas é hoje mais problemático. Parece até que Deus anda a brincar com a malta, posto que por um lado oferece-nos mais oportunidades mas, por outro, carrega-nos com toneladas de responsabilidade que nos inibem do que quer que seja.

Por isso não sei o que escolha: se os velhinhos valores, instituições e tecnologias do passado das relativas certezas; ou o caldo de cultura de globalização competitiva que hoje vivemos em permanente incerteza... É que hoje imensos casais de 20/30 anos querem ter um filho à força - e ou ela ou ele são estéreis, mas vemos que por esse mundo ainda nos aparecem pessoas de quase 70 anos a dar à luz. Além de incerto, este mundo também é bizarro...

Se fosse o dinossauros-rex do Carvalho da Silva da CGTP ou o outro da UGT, Gonçalves Proença - propunha aos portugueses que fossemos todos viver para Marte, uma maneira simpática de, no Dia dos Trabalhadores, nos mandarem à fava.


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